Não é negligência, imprudência, imperícia. É dolo – parte 1

Estou devastada desde domingo à noite. Como vocês devem ter acompanhado nos noticiários, a jovem Priscila Boliveira despencou de um parapente e faleceu nas areias de São Conrado, no Rio de Janeiro.

As semelhanças com a morte da minha irmã eram assustadoras. Depois que soube do acontecido, tive crise de choro e passei a noite praticamente insone. Ontem, li  tudo o que saiu sobre o acidente (por favor leiam todos os “acidentes” que eu escrever com muitas e muitas aspas), dei entrevistas, cavei telefones, conversei com nosso advogado.

Cheguei ao final do dia exausta. Um bagaço. Fisicamente, por não ter dormido; e emocionalmente, pois remexer nessa história é deveras desgastante. Mas como eu nunca mais quero passar por isso ou ouvir a voz de choro da minha mãe ao saber de um novo acidente, faço questão de escrever esse post. Ele é por mim, sim, mas é muito mais por você e pelos seus amigos e familiares.

Peço que compartilhem, divulguem, repensem. Você pode salvar vidas.

O acidente da minha irmã

Ana sempre quis voar de asa-delta. Como é caro (os voos custam hoje entre R$ 250 e R$ 350), ela nunca havia conseguido ir. Em 2003, já trabalhando, decidiu ir. Recebeu um panfleto na praia, mas eu mesma a aconselhei a procurar a sede da Associação Brasileira de Voo Livre (ABVL), que fica na praia de São Conrado, a poucos metros da área de pouso das asas e parapentes.

Achamos que seria melhor ela procurar a associação para que esta a indicasse um piloto experiente, evitando riscos desnecessários. Foi o que ela fez. Disseram a ela – na ABVL! – que o melhor piloto disponível no momento era Edvaldo Silva, o Valtinho, que tinha muitas horas de voo e prêmios internacionais.

Ela acertou o pagamento para ela, e o amigo que a acompanhava, o Railson, também médico, voaria depois. À época era preciso assinar um termo de responsabilidade (não é o termo de matrícula que existe hoje) e pagar uma taxa dentro da própria ABVL. Se não me falha a memória, o valor era de R$ 5.

Os três (Ana, Railson e Valtinho) subiram para a rampa de decolagem. Notem que tal rampa fica em área federal, pois é dentro do Parque Nacional da Tijuca. Existe uma guarita para que você possa chegar até lá de carro. A área é uma concessão da União (no caso, do IBAMA) e, por isso, atividades ilegais não podem ser realizadas ali (ou em qualquer outro lugar, óbvio, mas essa condição está expressa no termo de concessão).

Ana se preparou para o voo. Como “preparação” entenda aprender a dar uma corridinha. Só. Aqui vocês veem ela poucos minutos antes da decolagem:

Ela estava feliz, satisfeita de realizar um sonho. Era a tarde de uma quarta-feira, 12 de novembro de 2003.

A decolagem de parapentes e asas acontece exatamente no mesmo local. A única diferença é que quem está na asa dá a famosa corridinha nessa parte de madeira aí que aparece na foto, enquanto o parapente decola de uma área imediatamente abaixo desta estrutura.

Ana decolou e tudo parecia correr bem. Até que a asa simplesmente quebrou no ar. Quebrou. Em vez de planar, ela ficou descontrolada e eles bateram em um costão de pedra e caíram no mar. Testemunhas dizem que a quebra aconteceu a 50-70 metros do chão.

Minha irmã chegou a ser resgatada com vida, mas Valtinho morreu imediatamente. Não sei a causa mortis dele, mas a da minha irmã foi a fratura da coluna cervical. Caso tivesse sobrevivido, ela teria ficado tetraplégica.

Railson, o amigo que a acompanhava, estava na rampa na hora do acidente e não viu o que aconteceu. Notou apenas a movimentação estranha, até que o levaram para a praia e ele ficou sabendo de tudo. Assim como os amigos de Priscila, ele teve de ir prestar depoimento na 15ª DP.

O motivo do acidente

A asa estava velha. E não sou eu quem está falando isso. Eu nunca nem vi a asa sem ser por essas fotos. Pentelha que sou, fui até a 15ª DP, enchi o saco do policial e ele chamou algumas pessoas para depor. Uma delas foi a presidente da AVLRJ na época do acidente, que coincidentemente também se chama Ana.

Ela disse que a asa que Valtinho usava estava CONDENADA pelos próprios pilotos. Estava muito velha, sem condições de uso. Mas mesmo assim ele subiu para a rampa, tirou a asa do “aseiro” (um depósito fechado que fica sob responsabilidade das associações) e voou.

Por favor notem que existe – ou deveria existir – um fiscal de rampa. E que sempre há outros pilotos lá em cima. Eles podiam ter impedido o voo, mas não fizeram.

Boatos dizem que a asa estava remendada com silver tape. SILVER TAPE.

Não foi feita perícia no equipamento. Ela caiu no mar, junto com a minha irmã e o piloto, e afundou. Dias mais tarde o corpo de bombeiros a retirou de lá, e entregou à ABVL. A própria associação fez a “perícia” (quão louco isso é???) e chegou à conclusão que não tinham conclusão.

Anotaram que a asa estava quebrada em algumas partes, mas não sabiam precisar qual parte quebrou no ar e qual se partiu no choque contra a pedra. Não há uma única palavra sobre as condições do equipamento, se estava velho, se alguma parte estava corroída, nada.

Quando perguntados em juízo o que haviam feito com a asa, eles disseram que jogaram fora. JOGARAM FORA. 

Como eu fiquei sabendo

Tudo isso aconteceu, o mundo ficou sabendo (porque saiu em jornais, plantões e sites), mas eu estava alheia a tudo. Saí do trabalho e fui para a aula de espanhol, deixando meu celular no silencioso durante esse tempo. Passava um pouco das nove da noite quando cheguei em casa e notei as dezenas de chamadas perdidas no telefone. Não vou passar detalhes desse momento, porque foi extremamente dramático e muitos de vocês já sabem.

O fato é que em poucos minutos a minha casa estava cheia de amigos (queridos, os agradeço imensamente por isso). Dois deles estavam no IML, minha prima e um ex-namorado. Só que o corpo da minha irmã não estava lá, mesmo horas após o acidente.

Flávia e Roberto, duas almas gêmeas que tive o prazer de encontrar nessa vida, foram até o Grupamento Marítimo dos Bombeiros, na Barra, e descobriram que a Ana (desculpem, não consigo chamá-la de “corpo” ou “cadáver”) estava lá. Numa maca. Há horas. Eles acompanharam o carro dos bombeiros que a transportou para o IML, onde chegou apenas no início da madrugada.

A atitude das associações após o óbito e o traslado do corpo

Quando Flá e Beto chegaram ao IML e encontraram minha prima, Adriana, e o Cristiano, o ex-namorado, o local estava lotado de pilotos de voo livre. Todos prestando solidariedade à família do Valtinho, cujo corpo tinha ido direto para lá após o acidente. Eles estavam tentando liberar o cadáver para sepultamento.

Em conversas informais, os diretores da ABVL e da AVLRJ (hoje chamada de Clube de Voo Livre de São Conrado) disseram que dariam todo o apoio para ajudar-nos na burocracia decorrente da morte da minha irmã. Entregaram cartões, números de telefone, foram simpáticos e aparentemente prestativos. Disseram, também, que existia um seguro que cobria casos como aquele.

Só que o corpo da Ana não poderia ser analisado naquele momento, pois já era madrugada e não havia nenhum médico de plantão. Teríamos, então, que esperar a manhã seguinte.

Foi o que fizemos. No horário da abertura do IML já estávamos lá (eu, em completo choque). Além da demora habitual de qualquer órgão público, a impressão digital da Ana estava muito fraca na carteirinha do Conselho Regional de Medicina (CRM), o único documento que ela havia levado para o Rio.

Enquanto tentávamos liberar o corpo apesar deste inconveniente, tive de lidar com repórteres-urubus. Passamos horas naquele lugar fétido (o IML é o lugar mais fedido do mundo). Nesse meio tempo tivemos que começar a organizar o traslado do corpo para Manaus, onde Ana seria enterrada.

Antes de embarcá-la no avião, porém, seria necessário embalsamá-la. Creio que isso aconteça por questões de segurança, para que o avião não seja infectado com alguma doença que o morto porventura tivesse. Isso também conserva o corpo por muito mais tempo.

Foi quando alguns amigos tentaram contato com o pessoal da ABVL e da AVLRJ. Como poucos voos faziam esse traslado à época, precisávamos liberar o corpo imediatamente, para que desse tempo de irmos para Manaus no mesmo dia.

Todos os telefones indicados estavam desligados ou fora de área. Deixaram recado nas associações. Ninguém jamais retornou ou nos deu qualquer auxílio na liberação e traslado do corpo.

Com auxílio inestimável da minha amiga Christianne, encontramos uma funerária que fez todo o serviço de embalsamar e transportar para o aeroporto. Porém, só conseguimos embarcar – eu, Ana, Railson e meu cachorro – na sexta-feira pela manhã (o acidente havia sido na quarta-feira).

Aqui eu preciso fazer um mimimi, já que não fiz até agora. Ao chegar em Manaus meu pai me esperava dentro da sala de desembarque. Todo mundo na cidade já sabia do que havia acontecido e deixaram que ele ficasse lá dentro.

Perguntei pela minha mãe e ele disse “está lá no Terminal de Cargas”. Pedi para ele pegar meu cachorro e saí correndo pelo aeroporto. Minha tia Magnólia me levou até o outro terminal, onde encontrei minha mãe e meu irmão. Estávamos completamente destruídos. Vocês não têm a menor ideia do que é receber o caixão da própria irmã num terminal de cargas.

Voltando.

Levamos à funerária, velamos, enterramos. E aí começa uma nova saga na minha vida, que escreverei em outro post porque este já está longo demais.

 

 

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31 ideias sobre “Não é negligência, imprudência, imperícia. É dolo – parte 1

  1. Triste, muito triste tu ter passado por tudo isso. E nobre, muito nobre, tu te dispor a reviver essa situação para evitar que outras famílias sejam devastadas.

    Força, Letícia.

  2. é muito ruimver esse tipo de coisa. é triste ver quem amamos saindo de nossas vidas inesperadamente.

    Sinto muito por vc, estou imensamente triste por não poder estar ai e secar suas lágrimas.

  3. Num momento doloroso como esse, é lamentável e inadmissível que tenham tratado você e sua família com tanto descaso e desrespeito. Triste perceber que o fato ocorrido no último domingo tenha trazido a tona (em forma de dolorosas lembranças) uma situação extremamente triste na sua vida e na vida dos seus familiares.
    Eu sinto muito por tudo isso. :(

  4. A vida coloca a gente em cada situação Letícia. Só sabe quem passa.
    Eu não tenho nem o que te dizer…..
    Ontem conversando com meu irmão ele me disse uma coisa muito valiosa: ” Quando estamos certos temos que correr atrás dos nossos direitos”, e é isso que sua família está fazendo até hoje.
    Força e fé, é o que desejo.
    Fica aqui o meu abraço e o meu carinho.

  5. É tudo muito triste…mais triste ainda saber que nada foi feito, que a dor se soma a outras dores e tudo fica como antes e, passa-se um tempo e …volta. O incrivel é que ha mortes tambem de “pilotos” e nem isso é suficiente para que “eles” reavaliem todo o sistema…é justo?
    Sinta-se abraçada em sua dor.

  6. Nossa estou muuito emocionada com a sua estória, só de imaginar oque vc e sua familia passaram me dá um nó na garganta…
    E nossa estou indignada com tanto desleixo, desprezo pela vida humana que essa ABVL teve e tem!!
    Torço que vcs consigam fazer justiça com o processo que foi instaurado e que essa pratica ilegal acabe de uma vez por todas.
    abraço

  7. Eu perdi meu irmão por negligencia da escola/ professores onde ele estudava exatamente 11 meses antes. Foi diferente, mas lendo seu relato lembrei de tudo que senti. Isso é tão horrivel! Lembrei do caixão dele chegando, lacrado na madrugada do meu aniversario. Eu pedi para ve- lo, ele estava irreconhecivel. Felizmente não lembro de muita coisa, mas a sensação daqueles dias, aquela coisa horrivel de não entender como alguém nos devolve um familiar querido morto é algo que não se esquece. E hoje, quase 10 anos depois eu ainda sinto revolta e tristeza por tudo isso. Quando ele morreu um pedacinho de mim se foi junto, e isso tornou a minha vida muito mais dificil desde então…

      • Ele se afogou. Era uma viagem de formatura da oitava série, eles desceram do onibus, depois de viajar a noite toda, deixaram as malas no hotel e foram para o mar. Era uma praia perigosa, não havia monitores em quantidade adequada e os professores estavam ainda se acomodando na praia quando as crianças entraram na água. O mar estava ruim, teve um repuxo e algumas crianças se afogaram. Uns surfistas ajudaram no resgate, um outro garoto ficou internado mas sobreviveu e apenas meu irmão morreu.
        Foi horrivel! A escola não contou o que aconteceu à minha mãe, eles impediram que ela tivesse contato com as outras crianças e ela só pode falar com uma delas no dia que o corpo apareceu, 3 dias depois. Até então ela achava que ele estava vivo, ela nem sabia o que achar. Ela contou que lá isso era muito comum, que conversou com uma mulher que perdeu um filho assim e estava há dez anos esperando o corpo aparecer.
        Eu não gosto de lembrar disso, e fazia muito tempo que não pensava naquela noite. Depois disso evitei pensar, lembrar disso. Abrimos um processo mas ainda não aconteceu muita coisa. Mas isso me fez mudar totalmente, e algum tempo depois entrei em depressão.
        Acho que sua depressão pode ter sido desencadeada por isso. Você teve apoio dos seus amigos, mas passar por isso acaba com a gente. Eu fiquei sozinha, tinha acabado o ensino médio e cada um foi para um lado e eu não tinha ninguém para saber se eu estava bem. Não queria falar sobre isso com a minha mae, pois imaginava que ela estava sofrendo mais do que eu. Eu engolia o choro e fingia que estava bem.

        Beijo

          • Obrigada, também sinto muito pela sua irmã, e sinto que inda tenha que ver outras pessoas perdendo a vida da mesma forma que ela.

        • Nossa Raquel, fiquei comovido com o que escreveu. Senti uma tristeza em mim e consegui sentir sua dor, essa dor de ter perdido seu irmão. O mais triste ainda é saber que essa outra mão espera o corpo de seu filho a dez anos, nossa!!!

          E que escola é essa? Fez questão de proibir contatos dela com as crianças para não saber da verdade? Cara inacreditável! Desculpe mas minha vontade neste momento era de poder te abraçar também, nunca tive uma perda assim, com um acidente desses.

          Me lembro de quando eu era criança, havia me afogado em um rio onde estava com todaminha família, a única coisa que me lembro é de meu tio comigo no colo dizendo em voz alta “olha como o coração dele está acelerado!”.

          Sinto muito mesmo Raquel, mas sei que seu irmão está bem agora, Deus o colocou no mundo e se permitiu que ele fosse, é por que tinha algum propósito para ele. Quem sabe cuidar de você lá de cima.

          Um beijo. . .

          • Poxa, obrigada. Também espero que ele esteja num lugar melhor, que tenha sido poupado desse mundo cruel, penso que pelo menos ele não ficou aqui vegetando ou algo do tipo.
            A escola chama Benedito Sampaio, fica em Campinas, ao lado do Culto à Ciência. É uma escola estadual.

            Beijos

  8. “Vocês não têm a menor ideia do que é receber o caixão da própria irmã num terminal de cargas”. Você tem toda razão, e só de imaginar essa situação, me dá vontade de chorar! Deve ter sido MUITO difícil!

  9. O voo duplo é permitido para instrução e não para turismo. pelo que li do recente acidente, a vítima assinou um termo em que se dizia aluna e com conhecimento dos riscos.
    Solicitar essa assinatura soa como má fé para resguardar os (ir) responsáveis. no caso da sua irma, ela tb assinou algo desse tipo?

    • Na época eles ainda não fingiam que eram instrutores (passaram a fazer isso depois que entramos na justiça contra eles). Mas eles faziam assinar um termo de responsabilidade. Só que esse termo não tem valor jurídico.

  10. Sinta-se abraçada por mim. Eu perdi meu pai há pouquíssimo tempo, e conheço vários dos sentimentos descritos aí – especialmente a sensação da Raquel, de ver a pessoa que você tanto ama viva e horas depois te devolverem ela morta num caixão.
    Imagino como deve ser muito mais terrível da forma como foi com a Ana, resultado de uma negligência feia, e ainda descobrindo que todo o apoio e solidariedade oferecidos eram só conversa.
    Desejo força pra você e sua família. Fico feliz de saber que o processo segue e eles estão perdendo.

    • Morte é sempre muito difícil, Gabi. A gente tem que lidar com tantas coisas horríveis. Eu, por exemplo, tenho horror a saudade. Imagina uma saudade que não passa nunca?

      Mas quando é algo que poderia ter sido evitado, a sensação é de revolta. Quando continuam acontecendo, é de impotência. Enfim, são sentimentos muito ruins de fato.

      E tenha força para segurar a barra pela falta do seu pai.

      Beijo.

  11. Muito tocante o seu relato. Eu estou fazendo uma disciplina de Tanatologia e a professora me disse que uma das mortes mais dificeis de superar é a de um irmão. Poderia dizer muitas coisas sobre o luto, mas só consigo pensar em um abraço para confortar

    • Sabe o que é pior, Lety? As pessoas não acham isso. Elas sempre falam do pai que perde o filho. Mas o irmão é quem te liga com o passado e com o futuro, sabe? E vc ainda tem que lidar com seus pais desabando… é horrível.

  12. nao consigo nem fazer ideia do sentimento… mas soh de pensar, veio o nó na garganta e lagrimas nos olhos. tenho uma irmã q eh a minha vida. se um dia acontecesse algo com ela, eu morreria junto.

    • não morreria, Sil, porque há outras pessoas de quem você gosta. Sabe o que acontece quando alguém da família morre? Você fica tão preocupado com a reação dos seus familiares que a sua sensação de “cuidado” é tamanha que você não pensa em morrer. Você só pensa em cuidar.

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